As mãos na cabeça
(um tecto?)
Os braços tapando o rosto
De cócoras num canto de um cubo de cimento
A nossa fragilidade orgânica é da mesma massa que produz os deuses
Porquê não voar?
Porquê não comer apenas quando a fome aperta?
Porquê impor o sono a um corpo adormecido por uma vida inerte?
Tens a certeza que estás vivo?
Não seria de esperar, se estivesses vivo, que te recordasses plenamente de toda a tua vida?
Tens a certeza que eras tu a criança de quem te contam a infância?
Um baloiço embalado que perde velocidade
Areia terra e erva
Um edifício de telhas cor de tijolo
A necessidade de uma história
De sons que ecoem nas paredes
De corpos
Ainda que fantasmas que tudo povoem
Consegues sentir o teu corpo de criança?
Lembras-te da tua voz infantil?
Recordas a facilidade da euforia?
Acreditas mesmo no que dizem que foste?
Crês na tua vida enquanto uma linha ininterrupta?
Tens a certeza de que estás vivo?
Consegues prová-lo a ti próprio?
O fim do dia chega como uma esperança de água
Um oásis no fim de um futuro
A palavra “amanhã” é um soporífero altamente eficaz
Um hino à inércia cantado por toda a humanidade
Dentro apenas de uma só cabeça
Tens esperança para ti? E para os outros?
Acreditas num “mundo melhor”? acreditas que habitas “um mundo”?
Acreditas nos outros? Ou seja, que existem “outros” fora de ti?
Já alguma vez viste o que não eras capaz de imaginar?
Acreditas em alguma coisa que te seja exterior ao pensamento?
A solidão
Essa espera interna povoada de vozes imensas
Um deserto imenso que parecemos atravessar continuamente
A vida toda como se fosse lida num jornal
Escrito pelo próprio e por ele mesmo lido
Sozinho
Na única cadeira do café do qual é dono
Já te passou pela cabeça que os outros são uma alucinação tua?
Não precisarás deles como prova de que estás vivo?
Não serão apenas os fantasmas do que tu foste sendo?
E a história? E os romances? E os poemas?
Não chegam sempre a um ponto em que estavas prestes a adivinhar-lhes o fim?
Não serão uma criação tua que apagas da memória para te sentires parte de algo maior que tu?
Para que não sejas o grande e único responsável?
E se fores tu uma alucinação de um outro?