acolhimento

September 30, 2007

abraças a voz

que te constrói no peito

o seu eco sob divisões

as vazias

da casa

 

sentes-lhe o cavalgar no tórax

e a mão férrea que te invade

a boca

 

recolhes o dentes

 

a saliva acolhe tépida

a intrusa no desejo

 

também a solidão vibra

neste frágil caule d’amor perfeito

sentença

September 26, 2007

somos os bisturis do presente

e não há outra frase que se adeqúe

à voraciade com que olhamos as coisas

na solidez do tempo

na solidez do tempo

na solidez do tempo

cai uma gota de ácido púrpura

uma pedra

September 24, 2007

visão

September 23, 2007

o que se me insurge

é um unicórnio verde

rasgando o mar

e uma praia de prata

que lhe foge

à mesma sua velocidade constante

sempre sem

a acelaração da vida

a pedra

September 21, 2007

Vês distante um horizonte (3; último)

September 20, 2007

Uma bolinha
Que nem é perfeitamente redonda
À volta de uma bola maior feita de fogo

Não parece fácil demais?
Não parece uma história de criança?
Não será uma reminiscência da infância?
Não será perfeita para ser perfeita?

Lembram-se do choque?
Recordam-se da queda a pique pelo abismo?
De se ter de ter criado o estômago para engolir a vertigem, porque a boca só não chegava?
Conseguem ouvir o grito?
O grande grito que criou o silêncio e que o tornou absurdo?
Conseguem ainda sentir a pele rasgar-se?

Água luz e erva
O chão confortável para o corpo
Enterrar as mãos na lama
E apenas sentir o prazer do fresco
Tornar-se nosso corpo de terra
Nunca nos cansarmos
Esquecermos a fome
Dormir quando se caía para o lado
Overdoses de riso
Mesmo quando foi triste
Quando foi injusta ou difícil
Havia um corpo certo no tempo
Uma pele sensível e dialogante
Um ser no momento que estava
Uma vida viva viva

Lembram-se do dia em que acabou a infância?
Lembram-se?
Lembram-se da morte a chegar tímida
Muito rápida e sem palavras
E de tudo o que ficou lá?

Vemos distante um horizonte
Na escuridão

Vês distante um horizonte… (2)

September 18, 2007

As mãos na cabeça
(um tecto?)
Os braços tapando o rosto
De cócoras num canto de um cubo de cimento
A nossa fragilidade orgânica é da mesma massa que produz os deuses

Porquê não voar?
Porquê não comer apenas quando a fome aperta?
Porquê impor o sono a um corpo adormecido por uma vida inerte?
Tens a certeza que estás vivo?
Não seria de esperar, se estivesses vivo, que te recordasses plenamente de toda a tua vida?
Tens a certeza que eras tu a criança de quem te contam a infância?

Um baloiço embalado que perde velocidade
Areia terra e erva
Um edifício de telhas cor de tijolo
A necessidade de uma história
De sons que ecoem nas paredes
De corpos
Ainda que fantasmas que tudo povoem

Consegues sentir o teu corpo de criança?
Lembras-te da tua voz infantil?
Recordas a facilidade da euforia?
Acreditas mesmo no que dizem que foste?
Crês na tua vida enquanto uma linha ininterrupta?
Tens a certeza de que estás vivo?
Consegues prová-lo a ti próprio?

O fim do dia chega como uma esperança de água
Um oásis no fim de um futuro
A palavra “amanhã” é um soporífero altamente eficaz
Um hino à inércia cantado por toda a humanidade
Dentro apenas de uma só cabeça

Tens esperança para ti? E para os outros?
Acreditas num “mundo melhor”? acreditas que habitas “um mundo”?
Acreditas nos outros? Ou seja, que existem “outros” fora de ti?
Já alguma vez viste o que não eras capaz de imaginar?
Acreditas em alguma coisa que te seja exterior ao pensamento?

A solidão
Essa espera interna povoada de vozes imensas
Um deserto imenso que parecemos atravessar continuamente
A vida toda como se fosse lida num jornal
Escrito pelo próprio e por ele mesmo lido
Sozinho
Na única cadeira do café do qual é dono

Já te passou pela cabeça que os outros são uma alucinação tua?
Não precisarás deles como prova de que estás vivo?
Não serão apenas os fantasmas do que tu foste sendo?
E a história? E os romances? E os poemas?
Não chegam sempre a um ponto em que estavas prestes a adivinhar-lhes o fim?
Não serão uma criação tua que apagas da memória para te sentires parte de algo maior que tu?
Para que não sejas o grande e único responsável?
E se fores tu uma alucinação de um outro?

Vês distante um horizonte… (1)

September 17, 2007

Vês distante um horizonte
Na escuridão

Quando abres os olhos pela primeira vez num dia: o que te chega?
És tu já imposto impostor de ti próprio quem já vê?
Ou és, ainda, o autómato informe de um rei indizível?

A lua vem decrescendo rapidamente
Transporta a lembrança de que o tempo é uma lâmina recolhida
Que quando solta dilacera muito do que sentimos

De quem são as tuas memórias?
Transporta-las?
Ou permites que tas tatuem imóveis nos membros que acreditas ter?

Fechar os olhos
Acreditando que tudo se manterá como sempre
A experiência da repetição é a repetição da experiência
Desejar o contrário é trazer o recibo do imposto pago no fundo do bolso vazio
Dormir dentro do eu que nos é permitido

Pensas dormir todos os dias da tua vida? Esforças-te por adormecer?
Qual é a hora de dormir?
Do que é que descansas?
Estás à espera que alguma coisa aconteça?

mão

September 13, 2007

nesta morada deserto

nesta morada deserto
um vento que se deteve
um encolher da terra
em sua pressa contida

no que há de líquido possível
sobe num curto escorrer
de alívio
o rápido brilho secreto
de uma evaporação absoluta

aqui
resta a sombra
das coisas em queda