sono

October 30, 2007

sobra-me um movimento
pequena distância de água límpida
um voo silencioso de madrugada
para que o sono perdure
para que a luz ténue e permissiva
não se volte a acender

os dias repetem-se
esgotando o desejo

escrita

October 26, 2007

trazes no pulso o movimento da pergunta

e

levas no olhar o cristal da questão

claro escuro

October 22, 2007

trago uma supernova
no ombro
essa candeia absoluta
que reflecte e imobiliza
na página o que de mim
se prende
rasga-me também o corpo
ardido
a sua lâmina de luz
assim outro que outro tem
secreto
vasculha o princípio do tempo
e a que cai
na escuridão oculta
é sempre
a primeira página do sempre

o infinito

October 16, 2007

o infinito quando azul

é uma pétala que se curva

sobre a nossa micro dimensão

e o zénite de sua curva

um ilusório horizonte

que retratamos com vários materiais

de esperança

como:

"cavalga-me pretérito um grito"

oh meu deus,

onde é que eu já ouvi isto

(continuas a usar esta expressão e

já há uns pares de séculos

que ninguém na tua família

leva os ritos a sério)

 

só há uma verdade

todos a conhecem

indizível

 

Fode Besta Fode

Fode Besta Fode

Fode Besta Fode

pai e filho à beira mar

October 13, 2007

vista

October 11, 2007

desta torre
estende-se a cidade até desde os prédios que a sufocam
baixo irregular arterial que pulsa como pode
lacerado a norte pelos grandes blocos castradores
sei isto para trás de mim
esta tepidez de cimento e alcatrão que nos afasta da terra fresca
sei isto quando fixo o espelho baço do oceano que se aproxima de dedos esticados pelo lodo e vegetação,
que nos oferece esta ria como represa energética infinita.

Engulo-a de um só sorvo nesta manhã, respiro-a ardente nos pulmões; e sei
que o dia escorrerá tranquilo e plácido

as marés circulam e aqui visitam a vida toda estendida
o lento movimento das areias como um mar ainda maior que ondulasse
no meu corpo
em meus olhos
arde a chama abrupta do ser
o existir sempre só
assim ligado

um pouco de todo

levo-me com a andorinha que risca o real.

*

October 9, 2007

li-te em mais uma página
um contorno do dorso por detrás 
estás quase completa
sei-te nalgumas feições e movimentos, mas não te imagino ainda leve a correr inteira nesse corredor criativo que percorres demasiado assombrado pela minha perscrutação 
sei que tenho que me retirar mais no meu olhar, deixá-lo livre e suspenso de pensamento, aclarado
para que me sujes

presença e paisagem

October 7, 2007

a mente exala diante dos olhos
expiro um insecto trémulo que contemplo indeciso
um pairar incompleto que gira diante do meu olfacto
obedeço à observação conhecendo o desejo de asas que sustêm o ser periclitante que me cativa

e surge compassada a ideia esburacada que construo a partir de

um quase nada
expulsão de uma luz muito distante

 

entretanto

 

a sul o mar embirra infantil e negro, as nuvens trazem a água

gélida de volta à terra, os bancos de areia ao longe são toda a

claridade deste dia nocturno e por vezes uma ave acinzentada que

empresta o seu voo ao vento

 

e congela sustida

lidos

October 5, 2007

excertos de alguns dos poemas que ontem à noite li num recital com o tema do "mar" no Café Aliança

*

deste mar os dias voltam
esverdeados ciclos no sopro distante
desta enorme boca salivada
a praia fixa

*

julgo sempre que vais partir a cada onda
espero sempre que não regresses
e deitado escuto os tombos
com que afagas o universo

*

trago uma onda submersa
nas pálpebras
e o movimento das águas
na minha cintura

*

porque nada tem uma só forma
e o mar é também estes olhos
fechados
num corpo sem esperança

*

as ondas a frescura
são o acorde obcecado
do vazio
a lembrança do anterior
do ser

*

palavra mais que todas
que silencia

água mole em pedra dura…

October 3, 2007