sono
sobra-me um movimento
pequena distância de água límpida
um voo silencioso de madrugada
para que o sono perdure
para que a luz ténue e permissiva
não se volte a acender
os dias repetem-se
esgotando o desejo
sobra-me um movimento
pequena distância de água límpida
um voo silencioso de madrugada
para que o sono perdure
para que a luz ténue e permissiva
não se volte a acender
os dias repetem-se
esgotando o desejo
trazes no pulso o movimento da pergunta
e
levas no olhar o cristal da questão
trago uma supernova
no ombro
essa candeia absoluta
que reflecte e imobiliza
na página o que de mim
se prende
rasga-me também o corpo
ardido
a sua lâmina de luz
assim outro que outro tem
secreto
vasculha o princípio do tempo
e a que cai
na escuridão oculta
é sempre
a primeira página do sempre
o infinito quando azul
é uma pétala que se curva
sobre a nossa micro dimensão
e o zénite de sua curva
um ilusório horizonte
que retratamos com vários materiais
de esperança
como:
"cavalga-me pretérito um grito"
oh meu deus,
onde é que eu já ouvi isto
(continuas a usar esta expressão e
já há uns pares de séculos
que ninguém na tua família
leva os ritos a sério)
só há uma verdade
todos a conhecem
indizível
Fode Besta Fode
Fode Besta Fode
Fode Besta Fode
desta torre
estende-se a cidade até desde os prédios que a sufocam
baixo irregular arterial que pulsa como pode
lacerado a norte pelos grandes blocos castradores
sei isto para trás de mim
esta tepidez de cimento e alcatrão que nos afasta da terra fresca
sei isto quando fixo o espelho baço do oceano que se aproxima de dedos esticados pelo lodo e vegetação,
que nos oferece esta ria como represa energética infinita.
Engulo-a de um só sorvo nesta manhã, respiro-a ardente nos pulmões; e sei
que o dia escorrerá tranquilo e plácido
as marés circulam e aqui visitam a vida toda estendida
o lento movimento das areias como um mar ainda maior que ondulasse
no meu corpo
em meus olhos
arde a chama abrupta do ser
o existir sempre só
assim ligado
um pouco de todo
levo-me com a andorinha que risca o real.
li-te em mais uma página
um contorno do dorso por detrás
estás quase completa
sei-te nalgumas feições e movimentos, mas não te imagino ainda leve a correr inteira nesse corredor criativo que percorres demasiado assombrado pela minha perscrutação
sei que tenho que me retirar mais no meu olhar, deixá-lo livre e suspenso de pensamento, aclarado
para que me sujes
a mente exala diante dos olhos
expiro um insecto trémulo que contemplo indeciso
um pairar incompleto que gira diante do meu olfacto
obedeço à observação conhecendo o desejo de asas que sustêm o ser periclitante que me cativa
e surge compassada a ideia esburacada que construo a partir de
um quase nada
expulsão de uma luz muito distante
entretanto
a sul o mar embirra infantil e negro, as nuvens trazem a água
gélida de volta à terra, os bancos de areia ao longe são toda a
claridade deste dia nocturno e por vezes uma ave acinzentada que
empresta o seu voo ao vento
e congela sustida
excertos de alguns dos poemas que ontem à noite li num recital com o tema do "mar" no Café Aliança
*
deste mar os dias voltam
esverdeados ciclos no sopro distante
desta enorme boca salivada
a praia fixa
*
julgo sempre que vais partir a cada onda
espero sempre que não regresses
e deitado escuto os tombos
com que afagas o universo
*
trago uma onda submersa
nas pálpebras
e o movimento das águas
na minha cintura
*
porque nada tem uma só forma
e o mar é também estes olhos
fechados
num corpo sem esperança
*
as ondas a frescura
são o acorde obcecado
do vazio
a lembrança do anterior
do ser
*
palavra mais que todas
que silencia