planos para o “novo” ano ou como fazer de mais um ano um “novo ano”

December 31, 2007

o ursinho magnetizado

colado à porta do frigorífico

coitado tem uma perna partida

que combina com os pontos de ferrugem

que espreitam no revestimento

esmaltado

as instruções para a reciclagem

o número de telefone das pizzas

e por cima

coisas daquelas que não têm outro lugar

 

um machado na mão

começar por aqui

partir tudo com muita calma

 

depois

 

seguir pelo prédio abaixo

esquartejar vizinho atrás de vizinho

sair para a rua

respirar fundo

acender um cigarro

comprar um jornal

ir até ao cais

dar o mergulho eterno

as pedras

December 29, 2007

as pedras envolvem-se

de futuro

enterram-se na areia

de passado

em pó em terra

December 28, 2007

afaga-se de prata o horizonte

tem de mar o seu brilho aquoso

rasgado

e nele afogam-se quasares

que da distância subtraem

o possível

 

passáros negros

veludos vultos

que nos roçam a face cega

gritem noite

NOITENOITENOITENOITE

lambam-nos os dentes de sangue

que uivando nos saem do dorso

rasgamos todo o finito possível

em troca de apenas mais um passo

nesta lama de ossos encardidos

feitos em pó

em terra

hoje fui ao correios e estava lá uma mulher

December 19, 2007

caiem-te duas espirais dos olhos
duas brocas devastadoras actuam no real

estás nas estação dos correios
tens um papel com um número
na mão

tudo te parece morto
em volta
no entanto
tudo mexe
movimento baço de plasmas moles

sabes que a velocidade da luz é constante
c
sê!
és?

decides cantar dançando sensualmente
músicas de natal antigas
e vais-te despindo

ninguém reage

sabes que a pequenas velocidades
a relatividade
restrita e geral
mal se nota

ignoras os princípios fundamentais do universo
por uns breves momentos

e tens 76 anos
sentada a um espelho
pintas os lábios com um lápis de cera
cor de tangerina

e masturbas o sexo seco
com os restos de um cachimbo de marfim
do último amante que esquartejaste

a cada segundo que passa
esqueces-te de quem és

seis filmes

December 17, 2007

Fui desafiado pelo Fernando Esteves Pinto para o que parece ser um desafio em rede: uma escolha de seis filmes.

Vejo cada vez menos filmes e, cada vez menos, ainda, no cinema. Em casa, onde não tenho tv, fiquei há cerca de uns meses com o leitor de dvds estragado…

Mas o cinema é, para mim, sem qualquer dúvida, uma arte maior, que mexe com todas as outras e sabe delas adaptar e reciclar. Segue a lista:

- Paris, Texas de Wim Wenders;

- As Asas do Desejo, também de W. Wenders;

- 2001: Odisseia no Espaço, do Kubrick;

O Padrinho, do Coppola (podia por aqui os 3 da série, mas o 1º já marca a posição);

- O Imperador e o Assassino, de Kaige Chen;

- Naked Lunch, de David Cronenberg.

Seis filmes, pela ordem na qual me foram surgindo com este desafio/exercício proposto. Não creio que sejam favoritos, não sei se tenho seis filmes favoritos, ou se é que tenho algum. São, sem dúvida seis filmes que revisitarei sempre que puder e que se me tornaram referências, embora uns se mantenham em mim mais nítidos que outros.

Passo o desafio ao Miguel Godinho e a Reboliço.     

há para sempre um distância

há para sempre uma distância
um limite em excesso
que alimenta o porvir

não que o silêncio seja
um vazio
a voz não navega em exclusivo
o ar

e assim
nas margens
de um salto
habita o segredo
do secreto
aquele olhar muito lúcido
que a loucura inveja

é um sítio

December 14, 2007

é um sítio
alguma matéria e muito vazio
sim, mas não é bem um sítio
é um tempo
mas não apenas só
é uma condição possível
um ramo de um prolífero tronco
do qual se tem a sensação de outros vários

homens e mulheres
alguns objectos, ainda que apenas parcialmente
sobretudo vultos, espectros
sim, sobretudo espectros de um possível

os homens comem as mãos
vorazes mas bem intencionados
apaixonam-se pela fricção que leva ao fogo
as mulheres sangram muito sagradamente
e servem de casa para todos
andam com as mãos nas águas
e transparecem

aí, dói nascer
bem mais, desde que se puseram em pé
o seu olhar sai-lhes, a todos, sempre
do rosto para a frente
e mesmo a saudade do esquecido
não lhes cria olhos na nuca
 
e, por vezes, alguém sai de lá
e pode observar tudo isto de fora
vendo, então, qualquer outra coisa do seu possível

quando volta
é venerado e dá a venerar os mitos que traz

da timidez dos fotões à percepção do “mundo”

December 12, 2007

Porra! Os fotões são tímidos e valorizam o movimento em onda!

Este é o seu modo “normal” de comportamento. Mas assim que “nós” os observamos, com se não soubéssemos desse seu comportamento, passam a agir como um feixe! (não é um peixe, han! mas é melhor confundirem com um peixe do que com um facho, palavra que também pode significar feixe, mas não quis utilizar, pois se for para ficarem baralhados, mais vale que seja com um peixe…)

Pode isto dever-se à “insustentável leveza”, ainda que relativa, que os caracteriza, mas não deixa de nos complicar as coisas, este seu embaraço em relação a como gostam de se mover.

Ora vejamos, se não podemos observar nem a matéria nem a energia sem “estarmos lá” e sem que elas “dêem” por isso e, com isso, alterarem o seu comportamento, como poderemos alguma vez saber alguma coisa? Han!?

Tudo se torna mais complicado ao sabermos que um objecto, quando não o observamos, está, ao mesmo tempo e sem se dividir, em todos os “sítios” possíveis de ocupar por ele (digo no universo!); mas, assim que o observamos, vê-mo-lo, exclusivamente, no “sítio” com maior probabilidade de estar! Ou seja, no sítio onde esperamos que esteja, salvo raras excepções que gostamos de chamar sobrenaturais (mas não são, caros amigos da “nova era”…).

Mas que maior probabilidade é essa, num âmbito (ou universo) infinito?

Digo-vos eu: essa maior probabilidade chama-se, no vulgo, CERTEZA!
É a nossa certeza, ou fé, se quiserem, no comportamento que nos rodeia que não nos deixa observar as coisas e o “mundo” como realmente são, ou, pelo menos, podem ser.

Então, das duas uma:

1ª. Ou levamos a sério o “querer e saber as coisas” e controlamos, pela vontade, todos os fenómenos da natureza (o que é fácil: bastará acreditar no que se quer que aconteça e ser bastante insistente).

ou

. Anulamos a expectativa, ou seja, a certeza inconsciente de como tudo age e, partindo dum vazio sem qualquer intenção, observamos o “Todo” no seu esplendor incompreensível. (Aqui até pode parecer que estou a ser metafísico, mas não… isto continua a ser da mais séria Física actual!)

O melhor de tudo é que, como é fácil de concluir, isto funciona de forma separada para “cada um” (mas não inconsequente para um “todo”), havendo, assim, todas as histórias possíveis ao mesmo tempo!

Uau!

(nota: quando digo “cada um”, serve para todos os sistemas, sub e sob atómicos, ou seja, para cada pessoa, cada fotão, cada galáxia e cada universo, só para dar exemplos dentro de uma infinidade indizível).

 

Dr. Psylocebe Higgs

(físico teórico e cosmonaufrago na galáxia Centauros A)

atrás de um monte

havia um homem

atirava pedras de trás de um monte

e ria

pensando que estava escondido

ria e nunca notava

que no fundo estava

sozinho

 

[mais uma vez obrigado ao Henrique Fialho pela lucidez. Ao outro Henrique (quem quer que ele seja), expressando-lhe a minha tristeza por ele.]

ardemos como cobras

December 7, 2007

ardemos como cobras
nos horizontes ébrios do calor
e as pedras erguem
o volume das cenas que se dão
em planos sobre si dobrados
asas longas sobrepostas
penas plúmbias
é desta forma
por vezes
que abandonamos o mundo
de rastos deixando para trás o couro
com os membros intensamente internos
no trabalho
de lembrar aprender
a vertigem laminar
o ritmo vítreo das escamas
que nos embala
no esférico segredo
da distância

ao senhor pereira

December 6, 2007

ao senhor pereira dos comentários neste blog e no do Sulscrito.

 

o senhor pereira

morde garrafões debaixo de um vão de escadas escuro

dentro de um poça de baba amarela

 

o senhor pereira

cheira a desodorizante, naftalina e halibut

 

o senhor pereira

tem o nariz até ao queixo

e come "macacos" sem ter que usar os dedos

 

o senhor pereira

gane quando anda

porque acha que tem os pés grandes

e compra sapatos pequenos

 

o senhor pereira

acha que os poetas não "dão" erros

 

o senhor pereira

não se acha medíocre

porque usa luvas para ler livros das bibliotecas

 

o senhor pereira

espeta alfinetes em borboletas

sentado numa cama de faquir

 

o senhor pereira

acha as moscas repugnantes

e vasculha a sopa antes de comer

 

o senhor pereira

usa as caixas de comentários dos blogs

para libertar a sua raiva e frustração

 

saúde! oh senhor pereira!

e muitos abraços também.

use os comentários sempre que queira

 

Pedro Afonso

2 haikus

December 5, 2007

a palavra flecha

tiro certeiro do poema

a imagem tensa

*

do som e da fúria

da vibração e da cor

todo o resto sobra 

equação quântica

December 2, 2007

o tempo é um tapete já estendido

no qual se avança de costas

olha-se o passado

e confia-se cegamente

no que já está

estendido para a frente

esperando acertar na curva