ESPAÇO - projecto de ocupação cultural

January 30, 2008

Tenho andado pela Fábrica nestes últimos dias a ajudar na preparação do evento que abre portas esta 4ª feira dia 30 de Janeiro.

Espaço

Exposições, Instalações, Música, Performances e Ateliers

dias 30 e 31 de Jan. e 1 de Fev.

das 10 às 22 horas

na antiga Fábrica da Cerveja em Faro

Entrada Livre

mais informações aqui

sim talvez sem dúvida

January 26, 2008

sim talvez um cavalo

um galope selvagem pelo deserto

a contracção dos músculos em liberdade

sim talvez seja um cavalo

sedento faminto sob um sol tórrido

sobre um solo de pó ardente

um galope selvagem atravessando um deserto

infinito sem noite nem vento

e quebrando o silêncio este golpear dos cascos

no branco liso do plano infinito

sim talvez uma crina suada brilhante

rubros filamentos soltos no movimento

selvagem sempre essa mesma questão

selvagem galope através deste deserto

sedento faminto de rubro cabelo (crina)

rasgando o horizonte de ninguém

sem tempo para deixar pegadas no pó

um galope que arrasta o rubro no branco deserto

sim talvez um cavalo a galope selvagem

sem dúvida sedento faminto

sem dúvida o deserto

um fio de fumo

January 21, 2008

à mesa o café solta um fio de fumo
a colher inútil o prato escusado
a sombra da mão que segura o cigarro
acorda-me do sono do fumo que sonho
a corda ou o fio de fumo que foge

vou agarrado às crinas de fogo
de um horizonte incandescente
cego na velocidade do avanço
do brilho que me rouba a pele e
me lava os ossos soltos no fumo

caio caio na cadeira em pé caio
para muito fundo e vou
agarrado às crinas de fumo
de um horizonte de fogo branco
largo a pele os ossos e o nome

afundo ainda assim os pés no fogo
antes da cabeça no brilho do fumo
e as crinas roçam-me o peito
que já não tenho não vivo o brilho
o branco o escuro o fumo que foge

à secretária escrever tudo isto
como que se voltasse como que
como se como aqui e aqui durmo
como se as crinas deixassem o peito
se o rasgo de brilho tivesse sido

e os livros são fumo se se experimentar
e a casa é fogo e fumo será o pó
é fumo parado ou quase tudo arde
as crinas varrem o mundo em fogo
o toque é fumo nem isso os ossos

o fumo é um grito do fogo em brilho
e os corpos não são fumo antes de serem
fogo os rostos que amo são brilho e as crinas
desenham-lhes a linha inexpugnável da
individualidade que é a luz negra do amor

astros astros e labaredas velozes e pêlo
em fogo e o fumo que fica para trás
e por cima e o brilho dos rostos que
os astros que caem deixam no nada
e este cair que é só andar depressa

e a cama que será fumo e que é
um fogo que nasce das pernas imparáveis
do corpo do brilho da fome e do sono
e as crinas no peito que são mãos
ardentes que dizem dorme dorme dorme

inox

January 17, 2008

sento-me
fumo um cigarro
quase não respiro
outra vez aqui
este lugar
contemplo o lava-loiça
a torneira
tudo encharcado
as gotas grossas que ainda deslizam
na superfície inoxidável
a paisagem de loiça brilhante
metais
plástico muito pouca madeira
tudo encharcado
o detergente de marca branca
amarelo berrante
os reflexos
inox
os pratos as tampas em pé
os dentes dos garfos
as lâminas que escorrem brilhantes
a água
a água que foge às superfícies
e a luz que parece nascer nos objectos
o vidro o metal o plástico
as minhas mãos latejantes do calor

a melancolia é por vezes
de uma beleza quase artificial

ouro água

January 15, 2008

ouro água
ouro água

ouro água
ouro água
e um olho vazio

ouro água
ouro água
o morto sorriu

ouro água
a porta e a ombreira
no meio do prado

ouro água
ouro água
da pedra: o brado

ouro água
ouro água

a troca

January 14, 2008

abdicou-se da Vida em troca de sofás e tvs, de um frigorífico recheado de coisas que não se sabe de onde vêm ou o que realmente são. abdicou-se da terra e do mar em troca de terrenos vedados e cuidados de onde se excluiu tudo o que possa constituir algum perigo. abdicou-se da lama, para que se chegue sempre com os sapatos limpos onde quer que se entre, em troca da sombra permanente do alcatrão e do cimento. abdicou-se do respeito pelo outro em troca de poder aceder sempre que se tiver vontade ao que se criou como necessidade. abdicou-se da morte em troca da doença prolongada e da vegetação mental. abdicou-se dos corpos mortos presentes, em troca de hospitais que não podem receber os vivos curáveis. abdicou-se da morte por troca com a doença eterna. abdicou-se da rua enquanto espaço onde estar em troca de uma mobilidade extrema que envenena o ar que se respira.

volta-se ao campo com os frigoríficos, os micro-ondas, as máquinas para tudo, os sacos de plástico, os ares condicionados, o cimento, o alcatrão, tudo, tudo às costas, porque, o que se quer do campo não é a vida.

sufocamos quem quer que seja, a qualquer distância que esteja de nós (quando mais longe melhor), em troca de um qualquer objecto leve e poderoso que nos não faça sentir a nossa solidão. abdicamos da inocência por uma cumplicidade muda que nos satisfaz a inércia e a fartura.

emparedamos os nossos filhos à nascença para que não tenhamos de cuidar deles e para que eles não sintam nunca o perigo que é estar vivo.

matamos a vida para vencer a morte. continuamos situados numa infância inconsciente que não quer entender a erosão como força principal da vida, que não quer sentir que isto é tudo apenas um sopro e que a fragilidade de um ser é a sua maior vitalidade, ou seja, sua única forma de alguma vez sentir a Vida.  

as roupas

January 9, 2008

corriam corriam corriam
pelo campo a respiração esverdeava
em fuga até deitar por fora os pensamentos
planavam sós numa clareira sombria

corriam nus despidos e quentes
sentindo sentindo sentindo
o mundo roçar-lhes raspar-lhes a pele os flancos
e sob os pés os cortes de estarem vivos vivos vivos

e na paragem dos corpos
todos os fluidos se libertavam na terra
a lama onde lutavam pelo ar enquanto
lhes sarava a pele e o fôlego

possuiam-se à força cravados como espinhos
nas carnes um do outro até doer nos muros
colando os corpos de baba e sangue e pó e unhas
raspavam-se nas árvores que assistiam mortas

e geravam lagartos que a ela lhe saíam do sexo
e que ele depois comia comia comia
e enterravam-se e sustiam a respiração
até quase não voltarem a ver poder pensar

depois voltando ao sítio de partida
choravam que se cegavam de vergonha
inconsoláveis mordiam os lábios sem olhar os corpos
de novo a presença das roupas crescia crescia crescia

nesta casa de luz

January 4, 2008

nesta casa de luz

entre muitos outros espectros

uma trepadeira trepa

a figura da felicidade

toma formas muito exactas

agarrada à transparência

 

passa no corredor

por uma chuva miúda estática

e curva para a sala

a disposição erecta o corpo

paira no vácuo

e decide-se uma janela

que vista! que vista!

o edifício imaterial

que ainda assim se sustém

de cisão

January 1, 2008

pus, no sítio da lembrança,

uma rosa aberta;

ou melhor,

pus, no sítio da lembrança,

uma rosa aberta;

ou melhor ainda,

pus, no sítio da lembrança,

uma rosa aberta.