fórmula civilizacional
a felicidade é inversamente proporcional à consciência
a felicidade é inversamente proporcional à consciência
“Siga sempre em frente”
disse apontando com a mão
muito precisa. A rua tinha
mais cinco metros e era sem saída;
acabava num velho prédio que
arreganhava umas escadas
através da porta descaída.
Subi,
Subi as escadas até ao último
andar. Uma porta entreaberta,
entrei: uma morada pequena
e descuidada. Pousei o caderno
que tenho na mão e nunca mais
sai. Vivi desde então nesta casa,
neste prédio, nesta rua. Amei
uma laranjeira abandonada à sua
natureza que está nas traseiras do prédio
e dela comi; alguns espinafres também
que cresciam junto ao muro das traseiras
do prédio e alguns animais mortos
que cacei com a armadilha do tempo.
O sol quase nunca aqui chega
e sou hoje um fungo nestas folhas,
as que ainda sobram do caderno.
Tinha poucos anos quando aqui entrei,
tenho agora todos desde então.
“Devíamos encontrar-nos de novo”
disse de sua teia indeclinável
e da mão esquerda um imenso prado verde
estendia-se aliciando a certeza
A outra mão escondida pelo corpo
essa luz violenta com que cega as palavras
Ruíram muitas colinas desde então
e muitas pedras são agora areia
que trago nos bolsos de dormir no chão
Aqui o amarelo sujeita
palidamente infinito no olhar
tingindo-se de um branco ofuscante
Mas é sem dúvida o deserto
o plano certo para encontrar
o ente da mão fértil
suspensa sua carícia derradeira
os olhos de água que não esqueço
Por agora os pássaros
negros muito encostados em seu voo
algumas plantas calcinadas
e esta pena que é um andar perpétuo
mastigando a língua e nunca a direito
Ah! E o céu coberto por um tecto
que já não vejo
PALAVRA IBÉRICA 2008
III Encontro Hispano-luso de Escritores
Punta Umbría 7 e 8 de Março de 2008
Este ano, já a 3ª edição do Encontro Palavra Ibérica, é em Punta Umbria. O ano passado foi em Vila Real de Santo António e para o ano voltará a ser cá em Portugal.
Vários participantes de várias nacionalidades e línguas.
Convívio, debate, pensamento, arte e literatura.
Vai, com certeza, valer a pena.
Mais informações, a lista de participantes e o programa aqui.
vamos todos
sim
vamos todos
ela sai à rua
mas entra também pelas casa
pelas nossas casas
entra pelas nossas casas
e recosta-se nos sítios insuspeitos
cavidades cantos parapeitos
senta-se nos nossos lugares
e onde nunca pusemos sequer o tacto
bebe do nosso chá
e até fuma dos nossos cigarros
prova mas não come
dos nossos pratos
e aprova o nosso vinho
brinda conosco ao futuro
escuta o que dizemos
uns aos outros
e memoriza para quando for preciso
a morte observa-nos os corpos
quando dormimos
cheira-nos o bafo
e passa com cautela
a língua gélida
pelas nossas testas suadas
quando desaparecemos
vasculha-nos a roupa usada
e deita-se na cova
que deixamos no colchão
mede-a
desmarca-nos os livros
e dança as nossas músicas
diverte-se portanto
na nossa ausência
parece que está sempre cá
chego a pensar
se nos visita
ou
se somos apenas os seus
convidados sem cerimónias
na falta de um deus
descasquemos uma laranja
e se ao fazê-lo
dela desabrochar
um raio ígneo de luz
das suas chamas beberemos
a ardente e doce crisálida da manhã
é que ninguém olha por nós
e para nós, por certo, quase ninguém olha
e mesmo esses que possam contemplar
nesta universal alvorada imensa
(ia a dizer eterna, mas não fui capaz)
facilmente encontrarão melhor espectáculo
por isso:
descasquemos a fruta que nos calha
e no máximo
só depois de saciarmos o calor
que nos chama ao infinito
ergamos braços brados e ferramentas
contra aqueles que nos tentam impor
deuses que são escadas
para nos treparem os dias
é claro que antes
que tudo isto seja possível
pensaremos muito
pelo pomar
da escolha que colhermos
sobrará todo o resto
já perdido
(ao papa, o ministro do inferno)
Nenhuma interrupção era permitida. Nem no indivíduo nem no continente inteiro havia permissão para o descanso; não há esconderijo para a existência; os intervalos verdadeiros não foram inventados.
Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser, Cap. XIV, 2, pág. 97, Caminho, 2004.
- Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser.
Gonçalo M. Tavares, A Máquina de Joseph Walser, Cap. I, 5, pág. 17, Caminho, 2004.
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Está de volta o Komboyo dos Lokos.
Passados 3 anos do 7º Komboyo,
chega agora o 8º com o tema Geração Espontânea.
Este evento é organizado pela ARCA e é aberto à participação de todos, apareçam.
Este Sábado, dia 9 de Fevereiro, em Faro.
Concentração e preparação às 20h junto ao Liceu João de Deus.
Mais informações aqui.