o copo

March 30, 2008

A. Perspectiva: câmara no topo da cabeça do "gajo".

1. Um "gajo" entra num snack-bar. Final de tarde, dia de semana.

Snack: frequentado sem estar cheio, amplo sem ser grande, luminoso sem janelas.

2. "gajo" - ágil e brusco - chega-se ao balcão e pede uma tequilla e uma cerveja.

3. Bebe a tequilla de um trago, dá um gole na cerveja, acende rápido um cigarro, dá um bafo, dá outro gole na cerveja, vira-se para o homem ao lado e diz - sem pausas longas e sem pensar nas palavras, rapidamente, portanto:

- Epá, tudo bem? Sim e tu? Na mesma, como sempre. E a mulher e os filhos? Bons, quer dizer, o puto constipado, nada de mais. E tu? E o trabalho? O trabalho dá trabalho, mas é bem pago. Sabes a minha sogra está a dar o berro. A sério? É. Uma chatice, mas desde que a minha mulher não entre em depressão… Vá, vamos é pensar noutras coisas.

4. Bebe o resto da cerveja num só trago, pisca o o olho ao homem a quem disse tudo o que anteriormente foi relatado e vai-se embora levando o copo na mão, deixando uma nota de 5€ no balcão.

B. Perspectiva: foco na nota, ouve-se a porta (de molas) do snack abrir e fechar. Muda foco: câmara da porta foca "homem" ao balcão: tem cara de parvo.

C. Perspectiva: câmara segue "gajo" pelas costas. Câmara pára à distância de focar a janela do condutor do carro do "gajo". Importante: nunca filma o chão até à perspectiva E..

5. "gajo" entra no carro, joga copo de cerveja pela janela (atenção: não se ouve som do copo a partir-se - já percebem). Liga o rádio - começa logo a toca o "Easy Ride" dos Doors - após precisamente 26 segundos fixando o horizonte: arranca (é fácil perceber qual é o momento a sincronizar com a música, os tais 26 seg.).

D. Perspectiva: a câmara não se move.

6. O carro afasta-se.

E. Perspectiva: a câmara roda para o chão ao lado do carro e foca o copo de cerveja na relva. Mantém o copo até acabar o tema que o rádio tocava (este nunca se deixou de ouvir e aumenta o volume da música ao mesmo tempo que o carro se afasta).

Black out.

boca de rio

March 27, 2008

hoje vi
a maquinação terrífica
uma força despojando-se toda

um braço cortado pelo pulso
esvaindo-se initerrupto
e infinito

a dádiva toda de tudo

uma pequena corrente
entrando mar adentro
contra todas as ondas

March 24, 2008

… e então Jesus disse:

- Pedro, sobre esta pedra só falta a cereja.

da chuva na cidade

March 20, 2008

a limpeza da água é só aparente

o brilho que traz é transitório

o cheiro não engana chove

mas continuamos na cidade

*

os homens maldizem agora

a chuva a outrora bendita

procuram a secura da aparência

a imunidade à vida

da varanda de manhã

March 18, 2008

cena:

homem (eu) à janela a tomar café e a fumar um cigarro.

tem como vista um jardim de infância, crianças a brincar, árvores, relva. ao lado uma obra, guindaste, máquinas, andaimes, ferros.

dia claro com algumas nuvens.

a perspectiva é a do homem.

close up:

uma nespereira, já com os frutos amarelos, um pardal que debica.

afasta um pouco o zoom do olhar: um falcão a pique agarra o pardal e afasta-se, sem nunca parar o voo, e, por entre os prédios, desaparece.

o homem (eu) fica alguns momentos com o café e o cigarro nas mãos sem se mexer.

*

Agora, expliquem-me lá esta merda!?

Antes havia ali uma casita com quintal e estão a construir um prédio horrível - de péssima contrução, dá para perceber isso - com 5 ou 6 andares. O barulho dos carros nunca pára. As crianças estão enjauladas dentro do "jardim", dentro do mundo. Eu estou a tomar venenos para acordar. Há pardais, há árvores de fruto, há falcões (!!!), as obras nunca param de contruir casas de merda, eu não saltei da varanda. As crianças parecem felizes. As pessoas que passam na rua não parecem nada. O som o som o som o som nunca pára e nunca é o das "cenas" que observamos.

O falcão e o pardal foram silenciosos o suficiente para não pertencerem a este mundo.

Expliquem lá esta merda que eu vos ofereço uma banana ou um pepino ou qualquer coisa útil que tenha aqui para casa. 

Destruição da Natureza - Ludo, Faro.

March 17, 2008

Vejam este vídeo.

É no Ludo, em Faro, na 5ª feira passada. Não tem nem sinalização nem qualquer informação.

Alguém sabe o que se passa?  

há verde por vir ainda

March 14, 2008

os flamingos rasgam
uma rosa de verdade
no céu suspenso da noite

a ria espelha estática
o peso que se imensa
do longínquo terror celeste

já o tinha dito noutro poema
"somos fósforos ardidos na escuridão"
que agora avançou e nos permeia

esperemos das bocas negras
como flechas muito acesas
que cheguem as lâminas vozeadas

há verde por vir ainda
mas não se move em esperança
uma floresta selvagem que nos engula

Feira de Ideias com poesia

March 12, 2008

Neste Sábado, dia 15, à tarde, eu e o João Bentes vamos estar na Ecoteca de Olhão\Museu João Lúcio a ler alguma poesia de intervenção com o Algarve como tema.

É mais uma Feira de Ideias com Cheiro de Framboesa, um evento diverso. Podem consultar o programa aqui.

Apareçam, tudo começa de manhã e estende-se até ao final do dia (ou mais) num local bastante agradável: o Chalé João Lúcio, edifício de arquitectura simbolista, junto à Ria Formosa.

no Palavra Ibérica

Um abraço a todos os que lá estiveram.

Obrigado a quem o torna possível todos os anos.

Até sempre.

Dois dos poemas que li, no sábado à noite, lá em Punta Umbria, no III Encontro Palavra Ibérica:

este e este.

máquina poética

March 9, 2008

A poesia é uma máquina, sendo uma máquina um sistema de cortes*, e é o que permite vislumbrar o real.
Só através do corte é que é possível "parar o mundo", ou seja, subtrair à sua reconstrução permanente, ao seu fluxo, um "evento".
O infinito não se vê. A poesia aponta para o infinito através do corte. A máquina poética corta o infinito e permite a visibilidade momentânea do real. Corta o "fluxo" e cria "a parte".
Porque o real é "o Tudo", mas não é "um Todo". É uma parte que contém todas as partes, mas não as unifica. As partes apontam para ele, pois o real está ao seu lado e não sobre nem sob elas, nem elas dentro dele. Não têm origem num "Todo" originário, nem tendem para a unificação. A máquina poética corta, monta, combina, desliza, pára e faz parar, funciona, produz e avaria.

*Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, Assirio e Alvim, 2004, pag. 39.

questões matinais

March 6, 2008

quem és tu?
como te fazes?
que casas são estas
onde me introduzes
pela luz clara da manhã?
como se o meu corpo
fosse mais teu do que meu
e se figurasse insondável
neste arremessar de sons
contra a alvura da superfície
intocável
quem és tu?
recosido tecido de pensar
de ver finalmente
a multidão irredutível
como te fazes?
o que é isto que fazes comigo?
onde vais? espera…

deixas-me de olhos fixos

no inexpugnável

March 4, 2008

 

A FICÇÃO É A FOLHA

Llansol

March 3, 2008

______________ para o horizonte nos dirigimos e, ao aproximarmo-nos dele, mesmo não o atravessando, tememos a sua perspectiva; o horizonte é uma balança que mede a distância e o vazio; e a cada um dá o seu peso.

Maria Gabriela Llansol, um falcão no punho, diário 1, edições rolim, 1985, pag.134.

Morreu Maria Gabriela Llansol, hoje, aos 77 anos. Podem ler sobre a escritora e alguns textos dela aqui e aqui. Aqui o seu espaço no site da Assirio.

Aconselho qualquer um dos seus livros. Publicou-os nas Edições Rolim, na Relógio D’Água e na Assirio e Alvim. Gosto particularmente de um falcão no punho e de Causa Amante. 

Não lhe presto o culto que alguns lhe prestam, mas gosto muito dos seus livros, da sua escrita. Fez-me escrever bastante e interrogar a escrita e a língua. Por vezes, creio, a minha escrita é atravessada pela dela.

Obrigado, por       tanto.

inquérito de rua

p.: o que é que o senhor faz?
r.: nada… estou praí…
p.: e de que é que sobrevive?
r.: isto é só restos por todo o lado, sobreviver não é dificil. Viver é que…
p.: e projectos para o futuro?
r.: cada vez mais tenho a sensação que vou acabar esborrachado na via pública, à sombra de um edifício de 20 andares…

1ª Antologia de Micro-Ficção Portuguesa

March 2, 2008

 

Tive o prazer de colaborar nesta "Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa" a convite do Rui Costa, que é, juntamente com o André Sebastião, quem fez a selecção e a organização do volume. Podem ler mais acerca desta publicação da editora Exodus num texto do Henrique Fialho, que foi quem prefaciou a antologia.

Uma das Minhas Crises

March 1, 2008

Uma das Minhas Crises

Dia após dia, o amor acinzenta-se
Como a pele de um moribundo.
E noite após noite, fingimos estar tudo bem.
Mas eu tornei-me velho e
Tu tornaste-te fria e
Nada mais é lá muito divertido.
E consigo sentir uma das minhas crises a chegar.

Sinto-me frio como uma lâmina,
Apertado como um torno,
Seco como um rufar fúnebre.

Corre até ao quarto,
E na mala da esquerda
Vais encontrar o meu machado favorito.
Não fiques tão assustada,
Isto é apenas uma fase passageira,
Um dos meus dias maus.

Apetece-te ver T.V.?
Ou meter-te nos lençóis?
Ou contemplar a auto-estrada silenciosa?
Apetece-te algo para comer?
Gostavas de aprender a voar?
Gostavas?
Queres-me ver tentar?

Queres chamar a polícia?
Achas que é altura de eu parar?
Porque é que estás a fugir?
 

Letra: Roger Waters, One of My Turns, do álbum The Wall, 1979, Pink Floyd.

Tradução minha.