esmurro a areia
incomoda-me fazê-lo mas
não
aguento o mar todo a vir
eu estou só
numa mente-luz
esta ilha
não
trabalho dos dentes nos dedos
não
há quem me decida por mim
ou por aquilo que eu decidiria se decidisse
engulo-me areia em areia
não
sim
serei o que queres que seja
tu não
*
Existiu em tempos uma ilha ao largo da costa do Algarve em tudo semelhante às que ainda hoje insistem em proteger esta ria que me fascina. Uma ilha extensa, toda de areia branca que evaporava e ruía à força das marés, dos ventos e do sol. Esta ilha, agora impalpável e improvável, naufragou sem deixar pistas. Toda ela areia e alguns barracos de madeira, os quais o mar tratou de lhes dar outros usos, e os barcos de quem lá os teve engolidos pelo tempo e pelas entranhas negras desta ria que os sustentou.
Não seriam nenhumas as provas da existência desta areia elevada do mar e da sua pequena povoação de pescadores se um evento extraordinário não me tivesse ocorrido. Ainda assim, as provas dessa existência deixarão dúvidas a quem quiser prová-lo topograficamente ou por outros meios físicos que nos servem de verdade. A minha certeza não vos chegará, com certeza, mas o que vos apresento nesta publicação deixar-vos-á no mínimo inseguros em relação a um nada que outrora foi.
Ficou aqui a minha escolha de um conjunto mais vasto de textos desse caderno que encontrei debaixo das águas ao largo da extinta ilha de Santa Lúcida.
Espero que tenha sido - ou que seja, para quem não foi seguindo - uma leitura interessante.
Este conjunto inédito de textos continuará acessível aqui (ou na coluna direita na categoria rapaz areia).
Pedro Afonso, o achador do caderno submerso.