pedaços 1

May 31, 2008

- e lembraste-te disso quando?

- é pá, prái… anteontem. Quer dizer, anteontem e depois ontem e voltei a lembrar-me hoje.

- achas mesmo que as pessoas vão gostar de ler excertos aleatórios de conversas?

- e porque não? Toda a gente escuta excertos de conversas nos cafés, nos transportes, nas filas e salas de espera. Também devem gostar de os ler, não?

- não sei, acho que há melhores coisas para se fazer.

- desde anteontem também pensei noutras coisas. Por exemplo 

o que mais ser

May 29, 2008

tenho as mãos abertas
pelos espinhos de uma rosa
de uma carne incerta

amanheci de sangue
muito aguado e negro

deixei as marcas na parede
do meu caminho

e os passos foram esquecidos
pela derrocada da superfície

demorado acordar
laranja intensa

e as ruas vazias pela pressa

procuro um chão lavrado
onde pingar a ferida

uma sombra acesa
que me engula

o que mais ser do que
um ardor aflito de pés sem chão
um corpo trespassado
pelo arpão de um tempo
para sempre por vir

faca

May 28, 2008

que faca é esta

que cava o dia

sem que no fundo

lhe encontre qualquer substância?

que tem como única

utilidade

o corte do nervo

pela raíz de sua memória?

o assassino

May 23, 2008

Era o pico da tarde, se soprava alguma coisa era um bafo quente e lento pela planície seca e tórrida.
A casa branca brilhava no topo de uma colina ofuscando quem tentasse olhar para ele sentado à curta sombra do beiral. Usava um chapéu de palha que lhe tapava a cara. Sentado num banco, encostado à parede, tinha como companhia uma garrafa de bagaço e a carabina carregada.
Não se moveu em toda a hora de calor, talvez esperasse o fresco do fim da tarde, não sei. Assim como não sei se pensava na sinistra tarefa que tinha a cumprir ou na plantação que sofria ao sol.
Sei que ele tinha recebido dinheiro, e muito, para assassinar nessa tarde o governador daquelas terras.
Esperava contar-vos a história de um impiedoso assassino, mas acabo por vos descrever um natureza morta.

o dealer

May 16, 2008

Usava óculos escuros, um par novo cada semana, da moda. Usava fato, gravata, italianos. O cabelo brilhava do gel.
Era respeitado pelos vizinhos, desde as velhinhas do rés-do-chão às miúdas que coravam perante ele. Os homens invejavam-no pelos seus pertences, pelo estilo que passeava, pelas mulheres que o acompanhavam. Era um tipo frio, de poucas falas mas cortês.
O seu negócio prosperava. Comia fora, tinha carro de luxo, passava férias em resorts e comprava todas as novidades de conforto e entretenimento sem empréstimos.
Ele sabia que a sua actividade já acabara com a felicidade de muitos indivíduos e famílias. Isso fazia-o sentir desprezo por si próprio disfarçado de forma infalível. A sua frieza era um escudo para nunca descair no pedido de desculpas que sentia dever a toda a gente.
Sabia que aqueles que o admiravam seriam vítimas da sua rede implacável. Se não fosse ele a aliciá-los seria um concorrente seu.
Ele não produzia a mercadoria, apenas a distribuía. Defendia-se assim. Isto não era um dilema para ele, apenas, talvez, o princípio do que seria uma sua marca indelével na consciência.
Ele era o responsável de marketing do departamento de empréstimos de um grande e prestigiado banco.

rapaz areia (17) e epílogo

May 14, 2008

esmurro a areia
incomoda-me fazê-lo mas

não

aguento o mar todo a vir
eu estou só
numa mente-luz
esta ilha

não

trabalho dos dentes nos dedos

não

há quem me decida por mim
ou por aquilo que eu decidiria se decidisse
engulo-me areia em areia

não

sim

serei o que queres que seja
tu não

 

*

Existiu em tempos uma ilha ao largo da costa do Algarve em tudo semelhante às que ainda hoje insistem em proteger esta ria que me fascina. Uma ilha extensa, toda de areia branca que evaporava e ruía à força das marés, dos ventos e do sol. Esta ilha, agora impalpável e improvável, naufragou sem deixar pistas. Toda ela areia e alguns barracos de madeira, os quais o mar tratou de lhes dar outros usos, e os barcos de quem lá os teve engolidos pelo tempo e pelas entranhas negras desta ria que os sustentou.

Não seriam nenhumas as provas da existência desta areia elevada do mar e da sua pequena povoação de pescadores se um evento extraordinário não me tivesse ocorrido. Ainda assim, as provas dessa existência deixarão dúvidas a quem quiser prová-lo topograficamente ou por outros meios físicos que nos servem de verdade. A minha certeza não vos chegará, com certeza, mas o que vos apresento nesta publicação deixar-vos-á no mínimo inseguros em relação a um nada que outrora foi.

Ficou aqui a minha escolha de um conjunto mais vasto de textos desse caderno que encontrei debaixo das águas ao largo da extinta ilha de Santa Lúcida.
Espero que tenha sido - ou que seja, para quem não foi seguindo - uma leitura interessante.
Este conjunto inédito de textos continuará acessível aqui (ou na coluna direita na categoria rapaz areia).

Pedro Afonso, o achador do caderno submerso.

rapaz areia (16)

May 13, 2008

velhos pensamentos
surgem novos
com a primavera insinuante

os dias calmos e mornos
deitados na encosta da duna
estão próximos

o que nascerá desta vez?

algo de novo seria
não nascer nada
ou a mentira
que começo a vislumbrar
cair e ser levada
pelo mar

para de onde vem

é que os passos na areia
que ficam para trás
eu não sei se continuam

rapaz areia (15)

May 8, 2008

meu pai sentado
tecendo a rede
terá sempre buracos
creio

minha mãe escorre pelo cenário
a luz não é transparente

a rede cresce
mantém buracos
quase só

as mãos ásperas
palavras

rapaz areia (14)

May 4, 2008

chove lá ao fundo?
ou é luz que escorre
pelo cenário
permitindo-me ver
o que nunca lá estará?

penso por vezes
hoje
que dia é este

nada parece por vezes
estar verdadeiramente aqui