o dealer
Usava óculos escuros, um par novo cada semana, da moda. Usava fato, gravata, italianos. O cabelo brilhava do gel.
Era respeitado pelos vizinhos, desde as velhinhas do rés-do-chão às miúdas que coravam perante ele. Os homens invejavam-no pelos seus pertences, pelo estilo que passeava, pelas mulheres que o acompanhavam. Era um tipo frio, de poucas falas mas cortês.
O seu negócio prosperava. Comia fora, tinha carro de luxo, passava férias em resorts e comprava todas as novidades de conforto e entretenimento sem empréstimos.
Ele sabia que a sua actividade já acabara com a felicidade de muitos indivíduos e famílias. Isso fazia-o sentir desprezo por si próprio disfarçado de forma infalível. A sua frieza era um escudo para nunca descair no pedido de desculpas que sentia dever a toda a gente.
Sabia que aqueles que o admiravam seriam vítimas da sua rede implacável. Se não fosse ele a aliciá-los seria um concorrente seu.
Ele não produzia a mercadoria, apenas a distribuía. Defendia-se assim. Isto não era um dilema para ele, apenas, talvez, o princípio do que seria uma sua marca indelével na consciência.
Ele era o responsável de marketing do departamento de empréstimos de um grande e prestigiado banco.
