ELEGIA AO NOBRE SENHOR QUE FEZ NO ALGRAVE TUDO O QUE HOUVE DE BOM, COMO QUEM NÃO HÁ NINGUÉM NEM HÁ DE HAVER, QUE SABE TUDO E QUE PERANTE QUEM NUNCA SE TEM VALOR ALGUM A NÃO SER QUE SE FALE BEM DELE.
há paredes que conformam as pessoas
enquadram e amuralham-lhes os egos
dando-lhes a aparência de velhos
e portentosos edifícios inabaláveis
por cima do coração em ruínas
essas pessoas são muito pequenas
no seu interior que é dessas paredes
e gritam de suas vozes mudas
encorpadas pela pedra protegidas
pelo tempo contra todo o novo
são edifícios que só se permitem a si
e crescem assombrando o resto das ruas
reclamam uma dívida infinita sobre aqueles
que albergaram e não suportam o abandono
essas pessoas são como igrejas esquecidas
de portas fechadas com anúncios maldizendo
os fiéis expulsos e ofendem os não devotos
do alto dos seus mirantes muito escondidas
as suas paredes são caiadas de desprezo
e ao início da noite acendem as luzes
de todas as janelas enquanto choram na cave
pelo grandioso passado que imaginam
são padrecos muito treinados e efusivos
que não admitem qualquer outra palavra
que não soe a simpatia e mesmo quando falam
sem ser acerca de si mesmos é a si que
chamam outros são almirantes em terra perdidos
nas paredes querem festinhas e uma placa
comemorativa essas pessoas de paredes revestidas
e vidro duplo na cabeça coroada de utopias
vivem para a classificação têm algumas caixinhas
e se algo não cabe nelas queimam e crucificam
no seu desgosto impreterível elegem-se
marginais por desconsolo quando tudo o que desejam
lá do fundo da cave escura é a fama
o monumento e a corte toda para lhes cortar as unhas