pedaços 1

May 31, 2008

- e lembraste-te disso quando?

- é pá, prái… anteontem. Quer dizer, anteontem e depois ontem e voltei a lembrar-me hoje.

- achas mesmo que as pessoas vão gostar de ler excertos aleatórios de conversas?

- e porque não? Toda a gente escuta excertos de conversas nos cafés, nos transportes, nas filas e salas de espera. Também devem gostar de os ler, não?

- não sei, acho que há melhores coisas para se fazer.

- desde anteontem também pensei noutras coisas. Por exemplo 

o assassino

May 23, 2008

Era o pico da tarde, se soprava alguma coisa era um bafo quente e lento pela planície seca e tórrida.
A casa branca brilhava no topo de uma colina ofuscando quem tentasse olhar para ele sentado à curta sombra do beiral. Usava um chapéu de palha que lhe tapava a cara. Sentado num banco, encostado à parede, tinha como companhia uma garrafa de bagaço e a carabina carregada.
Não se moveu em toda a hora de calor, talvez esperasse o fresco do fim da tarde, não sei. Assim como não sei se pensava na sinistra tarefa que tinha a cumprir ou na plantação que sofria ao sol.
Sei que ele tinha recebido dinheiro, e muito, para assassinar nessa tarde o governador daquelas terras.
Esperava contar-vos a história de um impiedoso assassino, mas acabo por vos descrever um natureza morta.

o dealer

May 16, 2008

Usava óculos escuros, um par novo cada semana, da moda. Usava fato, gravata, italianos. O cabelo brilhava do gel.
Era respeitado pelos vizinhos, desde as velhinhas do rés-do-chão às miúdas que coravam perante ele. Os homens invejavam-no pelos seus pertences, pelo estilo que passeava, pelas mulheres que o acompanhavam. Era um tipo frio, de poucas falas mas cortês.
O seu negócio prosperava. Comia fora, tinha carro de luxo, passava férias em resorts e comprava todas as novidades de conforto e entretenimento sem empréstimos.
Ele sabia que a sua actividade já acabara com a felicidade de muitos indivíduos e famílias. Isso fazia-o sentir desprezo por si próprio disfarçado de forma infalível. A sua frieza era um escudo para nunca descair no pedido de desculpas que sentia dever a toda a gente.
Sabia que aqueles que o admiravam seriam vítimas da sua rede implacável. Se não fosse ele a aliciá-los seria um concorrente seu.
Ele não produzia a mercadoria, apenas a distribuía. Defendia-se assim. Isto não era um dilema para ele, apenas, talvez, o princípio do que seria uma sua marca indelével na consciência.
Ele era o responsável de marketing do departamento de empréstimos de um grande e prestigiado banco.