paredes (no verão) 7
ver com a imaginação
projectar os demónios no que nos rodeia e cativa
ver de olhos furados ou gastos
pela esfrega do acordar
ver vazio onde cabemos
porque "a realidade é apenas aquilo que resiste"
até ao prórpio olhar
ver com a imaginação
projectar os demónios no que nos rodeia e cativa
ver de olhos furados ou gastos
pela esfrega do acordar
ver vazio onde cabemos
porque "a realidade é apenas aquilo que resiste"
até ao prórpio olhar
a vida
talvez
como um filme
uma banda sonora sempre que não há diálogo
ruído
de fundo
e planos experimentais
como paredes nevrálgicas
imprimindo alguma dinâmica
ao personagem principal
e um fim
mesmo que absurdo
mesmo que abrupto
sempre
um fim
da nívea verticalidade inexpugnável: a incandescência
plano:
fixar até à cegueira
um galope gelado
impulso do estômago
súplica:
que o corpo se desmanche
no último grito possível
se cole à luz indecifrável
o poema:
fuga escarnada ao desconsolo
resto de humana sede
ELEGIA AO NOBRE SENHOR QUE FEZ NO ALGRAVE TUDO O QUE HOUVE DE BOM, COMO QUEM NÃO HÁ NINGUÉM NEM HÁ DE HAVER, QUE SABE TUDO E QUE PERANTE QUEM NUNCA SE TEM VALOR ALGUM A NÃO SER QUE SE FALE BEM DELE.
há paredes que conformam as pessoas
enquadram e amuralham-lhes os egos
dando-lhes a aparência de velhos
e portentosos edifícios inabaláveis
por cima do coração em ruínas
essas pessoas são muito pequenas
no seu interior que é dessas paredes
e gritam de suas vozes mudas
encorpadas pela pedra protegidas
pelo tempo contra todo o novo
são edifícios que só se permitem a si
e crescem assombrando o resto das ruas
reclamam uma dívida infinita sobre aqueles
que albergaram e não suportam o abandono
essas pessoas são como igrejas esquecidas
de portas fechadas com anúncios maldizendo
os fiéis expulsos e ofendem os não devotos
do alto dos seus mirantes muito escondidas
as suas paredes são caiadas de desprezo
e ao início da noite acendem as luzes
de todas as janelas enquanto choram na cave
pelo grandioso passado que imaginam
são padrecos muito treinados e efusivos
que não admitem qualquer outra palavra
que não soe a simpatia e mesmo quando falam
sem ser acerca de si mesmos é a si que
chamam outros são almirantes em terra perdidos
nas paredes querem festinhas e uma placa
comemorativa essas pessoas de paredes revestidas
e vidro duplo na cabeça coroada de utopias
vivem para a classificação têm algumas caixinhas
e se algo não cabe nelas queimam e crucificam
no seu desgosto impreterível elegem-se
marginais por desconsolo quando tudo o que desejam
lá do fundo da cave escura é a fama
o monumento e a corte toda para lhes cortar as unhas
cumprindo o suposto
sem fugas surpreendentes
onde há paredes há chão
cobrindo o abismo constante
é nele que me diluo
sentindo o fresco que resta
da manhã que morre na luz
talvez quase que acorde
antes da absorção derradeira
a sombra concentra-se
na base das coisas
a parede é um astro
plano fulgurante no cárcere
estou plantado nos sapatos
de um tempo do qual
as pegadas únicas se recolhem
nas solas coladas pelo calor
alugamos os dias
a um tempo ausente
e diante dos olhos fixos
ardem osgas translúcidas
nas paredes fugidas
pela nesga da porta
passa um mundo
distante como um insecto
que se irá esborrachar
em qualquer pára-brisas
hoje vi
a maquinação terrífica
uma força despojando-se toda
um braço cortado pelo pulso
esvaindo-se initerrupto
e infinito
a dádiva toda de tudo
uma pequena corrente
entrando mar adentro
contra todas as ondas
cena:
homem (eu) à janela a tomar café e a fumar um cigarro.
tem como vista um jardim de infância, crianças a brincar, árvores, relva. ao lado uma obra, guindaste, máquinas, andaimes, ferros.
dia claro com algumas nuvens.
a perspectiva é a do homem.
close up:
uma nespereira, já com os frutos amarelos, um pardal que debica.
afasta um pouco o zoom do olhar: um falcão a pique agarra o pardal e afasta-se, sem nunca parar o voo, e, por entre os prédios, desaparece.
o homem (eu) fica alguns momentos com o café e o cigarro nas mãos sem se mexer.
*
Agora, expliquem-me lá esta merda!?
Antes havia ali uma casita com quintal e estão a construir um prédio horrível - de péssima contrução, dá para perceber isso - com 5 ou 6 andares. O barulho dos carros nunca pára. As crianças estão enjauladas dentro do "jardim", dentro do mundo. Eu estou a tomar venenos para acordar. Há pardais, há árvores de fruto, há falcões (!!!), as obras nunca param de contruir casas de merda, eu não saltei da varanda. As crianças parecem felizes. As pessoas que passam na rua não parecem nada. O som o som o som o som nunca pára e nunca é o das "cenas" que observamos.
O falcão e o pardal foram silenciosos o suficiente para não pertencerem a este mundo.
Expliquem lá esta merda que eu vos ofereço uma banana ou um pepino ou qualquer coisa útil que tenha aqui para casa.
“Siga sempre em frente”
disse apontando com a mão
muito precisa. A rua tinha
mais cinco metros e era sem saída;
acabava num velho prédio que
arreganhava umas escadas
através da porta descaída.
Subi,
Subi as escadas até ao último
andar. Uma porta entreaberta,
entrei: uma morada pequena
e descuidada. Pousei o caderno
que tenho na mão e nunca mais
sai. Vivi desde então nesta casa,
neste prédio, nesta rua. Amei
uma laranjeira abandonada à sua
natureza que está nas traseiras do prédio
e dela comi; alguns espinafres também
que cresciam junto ao muro das traseiras
do prédio e alguns animais mortos
que cacei com a armadilha do tempo.
O sol quase nunca aqui chega
e sou hoje um fungo nestas folhas,
as que ainda sobram do caderno.
Tinha poucos anos quando aqui entrei,
tenho agora todos desde então.
Tenho andado pela Fábrica nestes últimos dias a ajudar na preparação do evento que abre portas esta 4ª feira dia 30 de Janeiro.
Espaço
Exposições, Instalações, Música, Performances e Ateliers
dias 30 e 31 de Jan. e 1 de Fev.
das 10 às 22 horas
na antiga Fábrica da Cerveja em Faro
Entrada Livre
mais informações aqui
sento-me
fumo um cigarro
quase não respiro
outra vez aqui
este lugar
contemplo o lava-loiça
a torneira
tudo encharcado
as gotas grossas que ainda deslizam
na superfície inoxidável
a paisagem de loiça brilhante
metais
plástico muito pouca madeira
tudo encharcado
o detergente de marca branca
amarelo berrante
os reflexos
inox
os pratos as tampas em pé
os dentes dos garfos
as lâminas que escorrem brilhantes
a água
a água que foge às superfícies
e a luz que parece nascer nos objectos
o vidro o metal o plástico
as minhas mãos latejantes do calor
a melancolia é por vezes
de uma beleza quase artificial
nesta casa de luz
entre muitos outros espectros
uma trepadeira trepa
a figura da felicidade
toma formas muito exactas
agarrada à transparência
passa no corredor
por uma chuva miúda estática
e curva para a sala
a disposição erecta o corpo
paira no vácuo
e decide-se uma janela
que vista! que vista!
o edifício imaterial
que ainda assim se sustém
é um sítio
alguma matéria e muito vazio
sim, mas não é bem um sítio
é um tempo
mas não apenas só
é uma condição possível
um ramo de um prolífero tronco
do qual se tem a sensação de outros vários
homens e mulheres
alguns objectos, ainda que apenas parcialmente
sobretudo vultos, espectros
sim, sobretudo espectros de um possível
os homens comem as mãos
vorazes mas bem intencionados
apaixonam-se pela fricção que leva ao fogo
as mulheres sangram muito sagradamente
e servem de casa para todos
andam com as mãos nas águas
e transparecem
aí, dói nascer
bem mais, desde que se puseram em pé
o seu olhar sai-lhes, a todos, sempre
do rosto para a frente
e mesmo a saudade do esquecido
não lhes cria olhos na nuca
e, por vezes, alguém sai de lá
e pode observar tudo isto de fora
vendo, então, qualquer outra coisa do seu possível
quando volta
é venerado e dá a venerar os mitos que traz
cai agora a chuva
a um ritmo que soa
a uma nova parede da casa
a chuva e a casa
são um aquário ao contrário
desta torre
estende-se a cidade até desde os prédios que a sufocam
baixo irregular arterial que pulsa como pode
lacerado a norte pelos grandes blocos castradores
sei isto para trás de mim
esta tepidez de cimento e alcatrão que nos afasta da terra fresca
sei isto quando fixo o espelho baço do oceano que se aproxima de dedos esticados pelo lodo e vegetação,
que nos oferece esta ria como represa energética infinita.
Engulo-a de um só sorvo nesta manhã, respiro-a ardente nos pulmões; e sei
que o dia escorrerá tranquilo e plácido
as marés circulam e aqui visitam a vida toda estendida
o lento movimento das areias como um mar ainda maior que ondulasse
no meu corpo
em meus olhos
arde a chama abrupta do ser
o existir sempre só
assim ligado
um pouco de todo
levo-me com a andorinha que risca o real.
a mente exala diante dos olhos
expiro um insecto trémulo que contemplo indeciso
um pairar incompleto que gira diante do meu olfacto
obedeço à observação conhecendo o desejo de asas que sustêm o ser periclitante que me cativa
e surge compassada a ideia esburacada que construo a partir de
um quase nada
expulsão de uma luz muito distante
entretanto
a sul o mar embirra infantil e negro, as nuvens trazem a água
gélida de volta à terra, os bancos de areia ao longe são toda a
claridade deste dia nocturno e por vezes uma ave acinzentada que
empresta o seu voo ao vento
e congela sustida