… e vocês aí

June 12, 2008

o sangue já não cabe
gargalhada azeda

círculos argolas
a dimensão extra do tubo

mãos nas fontes
o sangue já não cabe

e o horizonte arde no álcool
da língua que se apronta

ata ata ata ata os dias
lambe as mãos se têm exterior

madre pérola do meu fulgor
vulva aberta e escarlate

venha toda a terra
que o tempo já fugiu

canto agora o desamparo
para dentro da garrafa vazia

e a solidão é uma mão cheia
que me afaga a barriga

“the boatman’s call”

April 2, 2008

todos os dias o Chamamento
do Barqueiro neste acordar
para um nada que nos acolhe frio

todos os dias o rio enevoado
que nos convida pelo abismo
escancarado na cara ao espelho

todos os dias a procura
do conforto no infinito gélido
aberto no Grande Sem Fundo

mas as coisas que tocámos cintilam
e distraem-nos como animais absortos
que se vão tornando domésticos

há verde por vir ainda

March 14, 2008

os flamingos rasgam
uma rosa de verdade
no céu suspenso da noite

a ria espelha estática
o peso que se imensa
do longínquo terror celeste

já o tinha dito noutro poema
"somos fósforos ardidos na escuridão"
que agora avançou e nos permeia

esperemos das bocas negras
como flechas muito acesas
que cheguem as lâminas vozeadas

há verde por vir ainda
mas não se move em esperança
uma floresta selvagem que nos engula

o que vem nas mãos

February 21, 2008

“Devíamos encontrar-nos de novo”
disse de sua teia indeclinável
e da mão esquerda um imenso prado verde
estendia-se aliciando a certeza
A outra mão escondida pelo corpo
essa luz violenta com que cega as palavras

Ruíram muitas colinas desde então
e muitas pedras são agora areia
que trago nos bolsos de dormir no chão

Aqui o amarelo sujeita
palidamente infinito no olhar
tingindo-se de um branco ofuscante

Mas é sem dúvida o deserto
o plano certo para encontrar
o ente da mão fértil
suspensa sua carícia derradeira
os olhos de água que não esqueço

Por agora os pássaros
negros muito encostados em seu voo
algumas plantas calcinadas
e esta pena que é um andar perpétuo
mastigando a língua e nunca a direito

Ah! E o céu coberto por um tecto
que já não vejo

vamos todos

February 19, 2008

vamos todos
sim
vamos todos

ela sai à rua
mas entra também pelas casa
pelas nossas casas

entra pelas nossas casas
e recosta-se nos sítios insuspeitos
cavidades cantos parapeitos
senta-se nos nossos lugares
e onde nunca pusemos sequer o tacto

bebe do nosso chá
e até fuma dos nossos cigarros
prova mas não come
dos nossos pratos
e aprova o nosso vinho
brinda conosco ao futuro

escuta o que dizemos
uns aos outros
e memoriza para quando for preciso

a morte observa-nos os corpos
quando dormimos
cheira-nos o bafo
e passa com cautela
a língua gélida
pelas nossas testas suadas

quando desaparecemos
vasculha-nos a roupa usada
e deita-se na cova
que deixamos no colchão
mede-a

desmarca-nos os livros
e dança as nossas músicas
diverte-se portanto
na nossa ausência
parece que está sempre cá

chego a pensar
se nos visita
ou
se somos apenas os seus
convidados sem cerimónias

sim talvez sem dúvida

January 26, 2008

sim talvez um cavalo

um galope selvagem pelo deserto

a contracção dos músculos em liberdade

sim talvez seja um cavalo

sedento faminto sob um sol tórrido

sobre um solo de pó ardente

um galope selvagem atravessando um deserto

infinito sem noite nem vento

e quebrando o silêncio este golpear dos cascos

no branco liso do plano infinito

sim talvez uma crina suada brilhante

rubros filamentos soltos no movimento

selvagem sempre essa mesma questão

selvagem galope através deste deserto

sedento faminto de rubro cabelo (crina)

rasgando o horizonte de ninguém

sem tempo para deixar pegadas no pó

um galope que arrasta o rubro no branco deserto

sim talvez um cavalo a galope selvagem

sem dúvida sedento faminto

sem dúvida o deserto

um fio de fumo

January 21, 2008

à mesa o café solta um fio de fumo
a colher inútil o prato escusado
a sombra da mão que segura o cigarro
acorda-me do sono do fumo que sonho
a corda ou o fio de fumo que foge

vou agarrado às crinas de fogo
de um horizonte incandescente
cego na velocidade do avanço
do brilho que me rouba a pele e
me lava os ossos soltos no fumo

caio caio na cadeira em pé caio
para muito fundo e vou
agarrado às crinas de fumo
de um horizonte de fogo branco
largo a pele os ossos e o nome

afundo ainda assim os pés no fogo
antes da cabeça no brilho do fumo
e as crinas roçam-me o peito
que já não tenho não vivo o brilho
o branco o escuro o fumo que foge

à secretária escrever tudo isto
como que se voltasse como que
como se como aqui e aqui durmo
como se as crinas deixassem o peito
se o rasgo de brilho tivesse sido

e os livros são fumo se se experimentar
e a casa é fogo e fumo será o pó
é fumo parado ou quase tudo arde
as crinas varrem o mundo em fogo
o toque é fumo nem isso os ossos

o fumo é um grito do fogo em brilho
e os corpos não são fumo antes de serem
fogo os rostos que amo são brilho e as crinas
desenham-lhes a linha inexpugnável da
individualidade que é a luz negra do amor

astros astros e labaredas velozes e pêlo
em fogo e o fumo que fica para trás
e por cima e o brilho dos rostos que
os astros que caem deixam no nada
e este cair que é só andar depressa

e a cama que será fumo e que é
um fogo que nasce das pernas imparáveis
do corpo do brilho da fome e do sono
e as crinas no peito que são mãos
ardentes que dizem dorme dorme dorme

as roupas

January 9, 2008

corriam corriam corriam
pelo campo a respiração esverdeava
em fuga até deitar por fora os pensamentos
planavam sós numa clareira sombria

corriam nus despidos e quentes
sentindo sentindo sentindo
o mundo roçar-lhes raspar-lhes a pele os flancos
e sob os pés os cortes de estarem vivos vivos vivos

e na paragem dos corpos
todos os fluidos se libertavam na terra
a lama onde lutavam pelo ar enquanto
lhes sarava a pele e o fôlego

possuiam-se à força cravados como espinhos
nas carnes um do outro até doer nos muros
colando os corpos de baba e sangue e pó e unhas
raspavam-se nas árvores que assistiam mortas

e geravam lagartos que a ela lhe saíam do sexo
e que ele depois comia comia comia
e enterravam-se e sustiam a respiração
até quase não voltarem a ver poder pensar

depois voltando ao sítio de partida
choravam que se cegavam de vergonha
inconsoláveis mordiam os lábios sem olhar os corpos
de novo a presença das roupas crescia crescia crescia

em pó em terra

December 28, 2007

afaga-se de prata o horizonte

tem de mar o seu brilho aquoso

rasgado

e nele afogam-se quasares

que da distância subtraem

o possível

 

passáros negros

veludos vultos

que nos roçam a face cega

gritem noite

NOITENOITENOITENOITE

lambam-nos os dentes de sangue

que uivando nos saem do dorso

rasgamos todo o finito possível

em troca de apenas mais um passo

nesta lama de ossos encardidos

feitos em pó

em terra

há para sempre um distância

December 17, 2007

há para sempre uma distância
um limite em excesso
que alimenta o porvir

não que o silêncio seja
um vazio
a voz não navega em exclusivo
o ar

e assim
nas margens
de um salto
habita o segredo
do secreto
aquele olhar muito lúcido
que a loucura inveja

ardemos como cobras

December 7, 2007

ardemos como cobras
nos horizontes ébrios do calor
e as pedras erguem
o volume das cenas que se dão
em planos sobre si dobrados
asas longas sobrepostas
penas plúmbias
é desta forma
por vezes
que abandonamos o mundo
de rastos deixando para trás o couro
com os membros intensamente internos
no trabalho
de lembrar aprender
a vertigem laminar
o ritmo vítreo das escamas
que nos embala
no esférico segredo
da distância

2 haikus

December 5, 2007

a palavra flecha

tiro certeiro do poema

a imagem tensa

*

do som e da fúria

da vibração e da cor

todo o resto sobra 

um posto avançado no universo

November 22, 2007

a fugacidade da palavra

o som segregando o brilho

a vala que se abre rubra

perante o cavalgar imparável

do sentido

é preciso atrasar o passo

desprender das forças

o corpo e a tensa visão

e por momentos

numa solidão observada

ser um pouco

um posto avaçado no universo

limite

November 18, 2007

há instantes que chegou

claro quase quieto

como fumo fechado

sustenho a respiração

não o suficiente

para com ele partir

o desmaio muito fundo

de corpo quase transparente

recolhe as suas asas

respira a sua invisibilidade

e volta a dormir no escuro 

desejo

November 2, 2007

o desejo
asas
porque não: brancas
para que a imagem seja comum
ardendo num voo
desregrado

ou

por vezes
emaranhadas num sonho
distantes do corpo
tão frias
imóveis

e os olhos abrem-se
a uma canção de criança
na noite

claro escuro

October 22, 2007

trago uma supernova
no ombro
essa candeia absoluta
que reflecte e imobiliza
na página o que de mim
se prende
rasga-me também o corpo
ardido
a sua lâmina de luz
assim outro que outro tem
secreto
vasculha o princípio do tempo
e a que cai
na escuridão oculta
é sempre
a primeira página do sempre

o infinito

October 16, 2007

o infinito quando azul

é uma pétala que se curva

sobre a nossa micro dimensão

e o zénite de sua curva

um ilusório horizonte

que retratamos com vários materiais

de esperança

como:

"cavalga-me pretérito um grito"

oh meu deus,

onde é que eu já ouvi isto

(continuas a usar esta expressão e

já há uns pares de séculos

que ninguém na tua família

leva os ritos a sério)

 

só há uma verdade

todos a conhecem

indizível

 

Fode Besta Fode

Fode Besta Fode

Fode Besta Fode

acolhimento

September 30, 2007

abraças a voz

que te constrói no peito

o seu eco sob divisões

as vazias

da casa

 

sentes-lhe o cavalgar no tórax

e a mão férrea que te invade

a boca

 

recolhes o dentes

 

a saliva acolhe tépida

a intrusa no desejo

 

também a solidão vibra

neste frágil caule d’amor perfeito

nesta morada deserto

September 13, 2007

nesta morada deserto
um vento que se deteve
um encolher da terra
em sua pressa contida

no que há de líquido possível
sobe num curto escorrer
de alívio
o rápido brilho secreto
de uma evaporação absoluta

aqui
resta a sombra
das coisas em queda