rapaz areia (17) e epílogo

May 14, 2008

esmurro a areia
incomoda-me fazê-lo mas

não

aguento o mar todo a vir
eu estou só
numa mente-luz
esta ilha

não

trabalho dos dentes nos dedos

não

há quem me decida por mim
ou por aquilo que eu decidiria se decidisse
engulo-me areia em areia

não

sim

serei o que queres que seja
tu não

 

*

Existiu em tempos uma ilha ao largo da costa do Algarve em tudo semelhante às que ainda hoje insistem em proteger esta ria que me fascina. Uma ilha extensa, toda de areia branca que evaporava e ruía à força das marés, dos ventos e do sol. Esta ilha, agora impalpável e improvável, naufragou sem deixar pistas. Toda ela areia e alguns barracos de madeira, os quais o mar tratou de lhes dar outros usos, e os barcos de quem lá os teve engolidos pelo tempo e pelas entranhas negras desta ria que os sustentou.

Não seriam nenhumas as provas da existência desta areia elevada do mar e da sua pequena povoação de pescadores se um evento extraordinário não me tivesse ocorrido. Ainda assim, as provas dessa existência deixarão dúvidas a quem quiser prová-lo topograficamente ou por outros meios físicos que nos servem de verdade. A minha certeza não vos chegará, com certeza, mas o que vos apresento nesta publicação deixar-vos-á no mínimo inseguros em relação a um nada que outrora foi.

Ficou aqui a minha escolha de um conjunto mais vasto de textos desse caderno que encontrei debaixo das águas ao largo da extinta ilha de Santa Lúcida.
Espero que tenha sido - ou que seja, para quem não foi seguindo - uma leitura interessante.
Este conjunto inédito de textos continuará acessível aqui (ou na coluna direita na categoria rapaz areia).

Pedro Afonso, o achador do caderno submerso.

rapaz areia (16)

May 13, 2008

velhos pensamentos
surgem novos
com a primavera insinuante

os dias calmos e mornos
deitados na encosta da duna
estão próximos

o que nascerá desta vez?

algo de novo seria
não nascer nada
ou a mentira
que começo a vislumbrar
cair e ser levada
pelo mar

para de onde vem

é que os passos na areia
que ficam para trás
eu não sei se continuam

rapaz areia (15)

May 8, 2008

meu pai sentado
tecendo a rede
terá sempre buracos
creio

minha mãe escorre pelo cenário
a luz não é transparente

a rede cresce
mantém buracos
quase só

as mãos ásperas
palavras

rapaz areia (14)

May 4, 2008

chove lá ao fundo?
ou é luz que escorre
pelo cenário
permitindo-me ver
o que nunca lá estará?

penso por vezes
hoje
que dia é este

nada parece por vezes
estar verdadeiramente aqui

rapaz areia (13)

April 28, 2008

(eu quase que sei que sou uma sombra
que existe alguém em quem a luz me faz)

e caminho todo o dia roendo as unhas
até esta estrela cair-me do mar

o laranja vivo na areia
cinco raios de corpo-luz

sei que não lhe posso tocar
fará os meus dias
virá com a onda e com ela tornará
dia-de-mar

rapaz areia (12)

April 27, 2008

dois paus

na encosta da duna ao lado de minha casa
provavelmente trazidos de África
pela onda desta praia

encontram-se
numa ausência sua e calma
cruzados por cordas de barco

vejo-a da janela aberta do meu quarto fazer sombra
muito comprida
num doce luar inteiro

sempre me incomodou ver sair da areia
sem que a mova
a imagem cinzulenta e baça de um corpo que se encosta
sem peso
à cruz

sempre me fez querer fechar a janela
mas chama-me com um silencioso assobio de vento
os olhos para a duna

não reconheço nada nessa imagem
mas sei
por palavras que soam desde infância
que é meu irmão
morto nos braços de meu pai
esmagado entre dois barcos
no ano em que nasci

nunca se afasta da cruz
que eu saiba mais ninguém o vê
nem os cães ladram
apenas me olham o espanto que eu sei dar a sentir

olha-me fixamente e
como que se descesse degraus para dentro
desaparece na duna

eu sinto muito sono
e como se um pesadelo me chamasse
durmo

rapaz areia (11)

April 23, 2008

passos                 passos                 passos
que desaparecem na areada água desta onda
nesta praia só há uma onda
como pessoas
vai volta e parece vária

passos
na duna demoram pouco no chão
observo-os
enquanto ficam estou aqui

se não o mar
o nevoeiro apaga-me

areia lisa

rapaz areia (10)

April 21, 2008

os pescadores
ficaram para trás
destes passos que escrevo
suas vozes nem se ouviram
tal o nevoeiro nesta página

nunca volto a nuca
para onde me dirijo
mantenho assim o mundo
na areia de existir

rapaz areia (9)

April 19, 2008

sei amarar qualquer cio
mas o amor tive que o ler

é como o vento de África
morno
quando me afaga o cabelo

o mar que leva
e algas espessas me endurecem no escuro
do medo

o lodo fresco
que me engole pelos pés

são todos os grãos que me fazem
areia
esvaír-se de mim
e encherem-me de novo
numa fracção de arrepio eterno
que faz o estômago brinquedo de todos os cães

é a duna
que comigo andou
desde que nasci

a onda
que sempre volta

assim assim

rapaz areia (8)

April 18, 2008

respirar fundo e negro na noite

dormes como uma pálpebra espásmica
trabalhando a duna
dando as ordens para o sempre
em tua cardíaca demora

julgo sempre que vais partir a cada onda
espero sempre o não regresso
e deitado escuto os tombos
com que afagas o universo

nunca deixei de ouvir a tua canção
deitado na duna
ausculto a constante variação mínima
com que tentas compor os dias noutros

palavra mais que todas
que silencia

 

(todos os textos, publicados até agora, do Rapaz Areia aqui)

rapaz areia (7)

April 16, 2008

a onda dá-me
pela cintura de hoje
acaricia-me morna lenta
agora que os meus pés se diluem
no chão de mar

volto à areia
antes que parta em espuma
o corpo
salgado

rapaz areia (6)

April 15, 2008

incorporo a suave errância do vento
quando me bate na cara de um lado qualquer
e sou como ele
um enorme sopro desfeito

de quem será a face que acaricio?
e prossigo

rapaz areia (5)

April 14, 2008

há momentos tão preciosos
que os grãos se soltam
no vento que a luz faz no tempo

o espaço da duna é branco
e preenche-se de marcas
violentas
de tudo no chão

eu deixo por lá
meus passos

rapaz areia (4)

April 12, 2008

deste mar os dias voltam
esverdeados ciclos no sopro distante
desta enorme boca salivada
a praia fixa

esta pálpebra contínua
que enevoa aquosa tudo
nem as preces o fazem devolver suaves
as peles os corpos os ventos

comigo faz-se calmo
e deita-me a onda morna lenta
sempre a mesma

a duna
meu berço
desconfigura a noite
como se me oferecesse
uma pequena rosa a cada acordar

por vezes diante de seu infinito
grito de lábios estáticos
como se com um passo
me esgueirasse por seu horizonte

que manta tão densa
e nunca rasgada
nem as redes te coam os dias

rapaz areia (3)

April 11, 2008

aproximo-me
de longe que venho
não chego ainda
invisível areia levantada no vento

sentado
olhos vidrados pelo espelho do mar
no silêncio da voz soam as mãos encortiçadas

na memória                            meu pai
o afago sem aconchego
abrigo em seus braços
braços berço
braços tumba

sempre o vi entrar
nebulando-se
para o mar
no barco de névoa
de onde o nunca vi voltar

chego sempre
na hora das redes
que cose                                    meu pai
olha os buracos
passa-lhes os dedos secos
saberá que o tempo
por lá não passa?
só o vento e a onda                     seus pais
filhos do mar

ásperas as suas mãos
soam palavras
um apagado olhar
quando dobro a duna
olhos queimados na rede

como a onda
sempre o mesmo
sempre a sensação de uma repetição
que não sei se existe                     meu pai
a cadeira a rede
a cadeira no tempo
o tempo no contorno da rede
o contorno do barco
de nevoeiro
o som do mar
meu pai

(quando me deito
a porta fechada
faz-me medo

continuará tudo lá fora?)

rapaz areia (2)

April 10, 2008

gosto de passear os passos
pelo infinito
escorregar na prata
da larga duna que tudo enfrenta
observar a repetição do mar a vir
e rebentar o pensamento
na onda

a espuma ensina
a mistura do sempre
com o que se desvanece

deitar-me na areia
interrompendo os passos
adiar o infinito

rapaz areia (1)

April 8, 2008

levantam-se paredes na duna                 casa
aproximo-me com a areia
que o vento canta contra as paredes

olhos vidrados pelo espelho do mar                         meu pai
cose as redes
levanta um caco que me vê entrar
no silêncio da voz soam as mãos encortiçadas
são palavras suas                  ásperas

na cozinha minha mãe                           nebulosa
sento-me à sua frente
a ela sempre digo dos búzios, gaivotas
da areia
dos cães que nunca nunca me largam
da onda que continua a vir
todos os dias
até ao último levantar de olhos

após o último grão de voz
enfrento a cadeira vazia                              minha mãe
transparece
conversa muda
mas de quem sente

e vou para o quarto-outro-mundo
olhar os céus que não tenho
senão na mente

Rapaz Areia (prefácio)

April 6, 2008

Rapaz Areia

ou o testemunho de uma ilha desaparecida

 

Prefácio

pelo achador do documento

 

Existiu em tempos uma ilha ao largo da costa do Algarve em tudo semelhante às que ainda hoje insistem em proteger esta ria que me fascina. Uma ilha extensa, toda de areia branca que evaporava e ruía à força das marés, dos ventos e do sol. Esta ilha, agora impalpável e improvável, naufragou sem deixar pistas. Toda ela areia, excepto alguns barracos de madeira - os quais o mar tratou de lhes dar outros usos - e os barcos de quem lá os teve engolidos pelo tempo e pelas entranhas negras desta ria que os sustentou.


 Não seriam nenhumas as provas da existência desta areia elevada do mar e da sua pequena povoação de pescadores se um evento extraordinário não me tivesse ocorrido. Ainda assim, as provas dessa existência deixarão dúvidas a quem quiser prová-lo topograficamente ou por outros meios físicos que nos servem de verdade. A minha certeza não vos chegará com certeza, mas o que vos apresento nesta aqui deixar-vos-á, no mínimo, inseguros em relação a um nada que outrora foi.

 Tudo começou com uma viagem.

 Numa manhã de Outubro, daquelas de luz impensável, fui dar uma volta pela ria na canoa que um amigo me emprestara. Conhecia relativamente bem os canais e as passagens que surgiam como que da luz ao navegar pelas águas espectrais da ria formosa. Por isso, tentava sempre navegar por novos canais e atravessar zonas que me pareciam desconhecidas. Dessa vez encontrei-me numa área na qual nunca antes tinha estado, uma zona já muito perto do mar, onde uma duna fina separava as águas serenas e mornas das ondas brancas. Parecia ter sido uma zona de uma antiga barra ou, no mínimo, um estreito canal de ligação da ria ao mar. Sabia que nunca antes lá havia estado e também nunca ninguém me tinha falado de tal local, era estranho uma baía tão perfeita não ser conhecida, mas entusiasmava me aquele sítio poder vir a ser um refúgio apenas conhecido por mim e por um ou outro navegador mais. Encostei à areia e saí da canoa, estava calor e estendi-me um pouco, dormi. Quando acordei a luminosidade feria e a minha cabeça andava à roda, julgo que por ter dormido ao sol, o qual, reflectido na água, parecia ser de pleno verão. Molhei-me um pouco, doía-me a cabeça, senti que tinha de voltar para a canoa e remar de volta antes que me acontecesse algo ali sozinho. Assim que me pus a remar comecei a perder os sentidos e virei a canoa, senti-me afundar. Quando retomei os sentidos perdidos estava no fundo da água e, pela agitação, tinha sido arrastado para o mar. Estava prostrado no fundo do oceano sem saber onde, mas espantosamente estava vivo. Não poderia estar longe da costa, pois para isso teria de ter viajado mais tempo do que o oxigénio que retia me permitiria. Tudo se passou em câmara lenta: olhei em volta e o fundo do mar era branco e liso, a meu lado estava, por mais difícil que seja acreditar, uma mesa de cabeceira com os pés enterrados na areia. Abri a única gaveta que havia, peguei no saco de plástico que lá se encontrava e ascendi à superfície que não era distante. Estava a trinta metros da costa e após recuperar o fôlego nadei de bruços segurando o saco com os dentes, mal podia esperar por me sentar na areia e investigar o que, pelo tacto, me parecia ser um livro.

O conteúdo do saco era um pequeno caderno demasiadamente bem conservado para eu não sentir a princípio alguma relutância em acreditar no que nele se encontra escrito. Esse caderno, que ainda tenho, fora um diário. Um diário de um jovem que tivera aquela mesa-de-cabeceira num quarto naquela areia onde acordei debaixo de água. Nesse diário é contado o dia a dia da única povoação, cerca de dez famílias, da ilha de Santa Lúcida que existira até há trinta anos, sem que ninguém parecesse saber, exactamente onde me afoguei naquela manhã. O saco de plástico que continha o caderno fora usado, não pelo seu dono prever a extinção da sua morada, mas pela simples razão do material do recipiente ser lhe tão pouco familiar que depositou nele o que de mais valioso possuía.

Muito se pode ler no diário desse jovem, o qual nunca o assina, sobre a vida na ilha, sobre os seus tormentos, desejos, as suas suposições acerca do resto do mundo que lhe era tão distante, mas eu, fortuito achador do documento, nunca me atreveria a publicar páginas tão pessoais de alguém que nunca conheci e que em parte alguma dos seus escritos revela essa vontade. Publico aqui apenas alguns poemas que esse jovem peculiar apontou no seu caderno. Estes serão aqueles que podem oferecer um quadro da sua vida e uma panorâmica da sua obra. Faço-o porque não poderia deixar esta ilha e este rapaz no sítio de onde me consegui salvar.

Apresento-vos o Rapaz Areia, poeta habitante da ilha de Santa Lúcida na costa do Algarve, esperando que por momentos se sintam naufragados e transportados por uma serena corrente misteriosa e invisível, como a mim e a esse Rapaz aconteceu.


 

ao João Bentes, com eterna amizade.

Pedro Afonso